Artrose nas mãos: sintomas, causas e possibilidades de tratamento


Entenda como o envelhecimento, a genética e os hábitos de vida influenciam a saúde das articulações das mãos e conheça os tratamentos disponíveis para aliviar a dor e preservar os movimentos.
Estamos vivendo mais. Os avanços da medicina, a melhoria das condições de saúde e as mudanças na qualidade de vida fizeram com que a população alcançasse idades cada vez mais avançadas. Com essa maior expectativa de vida, também passamos a conviver com mais frequência com doenças relacionadas ao envelhecimento, especialmente aquelas que afetam nossas articulações.
Entre elas está a artrose das mãos, também conhecida como osteoartrose, uma condição degenerativa bastante comum, principalmente a partir da meia-idade.
As mãos nos acompanham em praticamente todas as atividades do dia. São fundamentais para trabalhar, cozinhar, escrever, digitar, utilizar o celular, cuidar da casa e realizar nossos cuidados pessoais. Por isso, quando começam a apresentar dor, rigidez ou perda de força, mesmo pequenas alterações podem trazer dificuldades importantes.
No consultório, é comum receber pacientes que relatam não conseguir mais abrir um pote, segurar uma xícara ou panela com segurança, girar uma chave ou realizar tarefas que antes pareciam tão simples. Outros procuram atendimento preocupados com o surgimento de deformidades nos dedos.
Compreender o que está acontecendo e conhecer as possibilidades de tratamento é o primeiro passo para recuperar a confiança no uso das mãos.
O que é a artrose das mãos?
A artrose é uma doença que compromete progressivamente as articulações. Ela envolve alterações na cartilagem, nos ossos , nos ligamentos e em outras estruturas responsáveis pelo funcionamento articular.
A cartilagem funciona como uma capa protetora ao osso, permitindo que a articulação se movimente com pouco atrito. Com o desenvolvimento da artrose, essa estrutura sofre modificações, podendo ocorrer redução do espaço articular, formação de pequenas projeções ósseas chamadas osteófitos (ou os populares "bicos de papagaio"), inflamação local e alterações na forma das articulações.
Esse processo pode provocar dor, inchaço, rigidez, perda de mobilidade e, em algumas situações, deformidades.
Viver mais é uma das grandes conquistas da medicina e da sociedade, mas a longevidade também traz seus desafios. Se, por um lado, ganhamos mais anos de vida, por outro, passamos a conviver com maior frequência com condições degenerativas, como a artrose. É uma espécie de bônus e ônus do envelhecimento. Entretanto, a artrose não depende apenas da idade: sua origem é multifatorial, envolvendo também predisposição genética, fatores hormonais, ambientais e as diferentes demandas às quais submetemos nossas articulações ao longo da vida.

Por que desenvolvemos artrose nas mãos?
O envelhecimento é um dos principais fatores relacionados à artrose. Ao longo dos anos, os tecidos articulares passam por modificações naturais, com alterações na capacidade de manutenção da cartilagem.
Entretanto, a idade não explica tudo.
A predisposição genética tem participação importante. É relativamente comum encontrarmos pacientes cujos pais ou avós também apresentavam aumento de volume, nódulos ou deformidades nas articulações dos dedos.
As mulheres, especialmente após a menopausa, apresentam maior frequência de determinadas formas de artrose das mãos, o que sugere a influência de fatores hormonais.
Além disso, outros elementos podem contribuir para o desenvolvimento ou agravamento da doença:
Histórico familiar e fatores genéticos: aumentam a predisposição individual.
Traumas prévios: fraturas articulares e lesões ligamentares podem favorecer o desenvolvimento de artrose secundária.
Atividades profissionais e manuais: determinadas atividades com cargas elevadas, esforços repetitivos intensos ou sobrecarga mecânica podem influenciar articulações específicas.
Alterações de estabilidade articular: modificações ligamentares podem provocar distribuição inadequada das forças sobre a cartilagem.
Fatores metabólicos e ambientais: também podem participar do processo degenerativo.
É importante destacar que utilizar as mãos no trabalho ou nas atividades cotidianas não significa, necessariamente, que a pessoa desenvolverá artrose. O movimento faz parte da saúde articular. O risco depende da combinação entre predisposição individual, características das atividades e condições de cada articulação.

Quais são os principais sintomas da artrose nas mãos?
A manifestação mais comum é a dor nas articulações, especialmente durante atividades que exigem força ou movimentos repetidos.
Entretanto, os sintomas podem variar bastante.
Alguns pacientes apresentam dor discreta e alterações importantes nas radiografias. Outros têm limitações significativas mesmo com alterações radiográficas relativamente pequenas.
Entre as queixas mais frequentes estão:
Dor nas articulações dos dedos ou na base do polegar.
Rigidez ao acordar ou após períodos de repouso.
Dificuldade para fechar completamente a mão.
Diminuição da força para segurar ou apertar objetos.
Inchaço e aumento de volume das articulações.
Estalos ou sensação de atrito durante os movimentos.
Surgimento de nódulos e desvios nos dedos.
Dificuldade para realizar movimentos delicados, como abotoar uma camisa ou manipular objetos pequenos.
Uma queixa particularmente frequente é a perda de confiança nas mãos. O paciente passa a evitar determinados movimentos por receio da dor, deixa de realizar atividades de que gosta e, gradualmente, percebe uma redução da sua autonomia.
Por isso, o tratamento não deve considerar apenas a aparência da articulação ou o resultado de um exame. É fundamental compreender o que aquela alteração representa na rotina de cada pessoa.
Quais articulações das mãos são mais afetadas?
A artrose pode comprometer diferentes articulações, mas algumas regiões são especialmente frequentes.
Artrose nas pontas dos dedos
As articulações próximas às unhas, chamadas interfalângicas distais, estão entre as mais acometidas.
Nessas regiões, podem surgir pequenos aumentos de volume ósseo, conhecidos como nódulos de Heberden. Com a evolução, alguns dedos podem apresentar desvios e redução da mobilidade.
Além da dor, muitos pacientes manifestam preocupação com a aparência das mãos e com a possibilidade de progressão das deformidades.
Artrose nas articulações intermediárias dos dedos
As articulações interfalângicas proximais, localizadas na região intermediária dos dedos, também podem apresentar alterações degenerativas.
Nelas, os aumentos de volume ósseo são chamados de nódulos de Bouchard.
Como essas articulações participam diretamente do fechamento da mão, sua rigidez pode dificultar atividades como segurar talheres, carregar sacolas, utilizar ferramentas e manipular objetos.
Artrose na base do polegar: Rizartrose
A Rizartrose é uma das formas de artrose das mãos que mais comprometem a função.
Ela afeta a articulação trapézio-metacarpiana, uma das articulações mais importantes no ser humano, localizada na base do polegar, responsável por grande parte dos movimentos de oposição e pinça.
Pacientes com rizartrose frequentemente relatam dificuldade para abrir embalagens, girar maçanetas, utilizar chaves, segurar o celular ou realizar movimentos que exigem pressão entre o polegar e os demais dedos.
Em fases mais avançadas, podem surgir perda de força, deformidade e limitação da abertura do polegar.
Qual é a diferença entre artrose e artrite?
Essa é uma dúvida bastante comum no consultório.
Embora os termos sejam frequentemente utilizados como sinônimos, existe uma diferença importante entre os conceitos.
A artrose, ou osteoartrose, é uma doença degenerativa de toda a articulação, caracterizada por alterações progressivas da cartilagem e de outras estruturas articulares. Ela também pode apresentar episódios de inflamação, responsáveis por dor e inchaço.
Já artrite é um termo que descreve um processo inflamatório de uma articulação, que pode ocorrer por diferentes causas, incluindo doenças autoimunes, infecções, deposição de cristais e a própria osteoartrose.
A artrite reumatoide, por exemplo, é uma doença inflamatória autoimune que possui mecanismos e tratamentos diferentes daqueles utilizados na artrose habitual das mãos.
Na prática, alguns sinais podem levantar a suspeita de uma doença inflamatória, como inchaço persistente de várias articulações, calor local, rigidez matinal prolongada e sintomas gerais.
Essa diferenciação é importante porque nem toda dor ou deformidade nas mãos representa artrose, e o diagnóstico correto determina a escolha do tratamento.

Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da artrose das mãos começa pela avaliação clínica.
Durante a consulta, procuramos compreender onde está localizada a dor, há quanto tempo os sintomas começaram, quais movimentos provocam desconforto e de que maneira a condição interfere nas atividades diárias.
O exame físico permite avaliar a mobilidade, a força, a estabilidade das articulações, a presença de deformidades e os pontos dolorosos.
As radiografias são os exames complementares mais utilizados e podem demonstrar diminuição do espaço articular, formação de osteófitos e alterações ósseas características.
Em situações específicas, outros exames podem ser necessários para investigar lesões associadas ou afastar diagnósticos diferentes.
Um aspecto fundamental é que a gravidade observada na radiografia nem sempre corresponde à intensidade da dor. Por esse motivo, a decisão terapêutica deve considerar principalmente os sintomas, as limitações e as necessidades do paciente.

Artrose nas mãos tem tratamento?
Sim. Embora ainda não exista um tratamento capaz de reverter as alterações degenerativas, existem diversas medidas que podem controlar os sintomas e melhorar significativamente a função das mãos.
O objetivo é aliviar a dor, preservar a mobilidade, melhorar a força e permitir que o paciente continue realizando suas atividades com a maior independência possível.
A escolha do tratamento depende das articulações comprometidas, da intensidade dos sintomas, do estágio da doença e das expectativas individuais.
Tratamento conservador: o primeiro passo
Na maioria dos casos, iniciamos com medidas não cirúrgicas.
Fisioterapia e terapia da mão
A reabilitação tem papel importante no tratamento. Exercícios específicos ajudam a preservar a mobilidade, fortalecer a musculatura, melhorar a estabilidade articular e desenvolver estratégias para realizar atividades com menos desconforto.
O acompanhamento por profissionais especializados também permite orientar adaptações nas atividades cotidianas, evitando sobrecargas desnecessárias.
Órteses e imobilizações funcionais
As órteses são dispositivos utilizados para oferecer suporte e estabilidade às articulações.
Na rizartrose, por exemplo, órteses específicas podem reduzir a sobrecarga na base do polegar durante determinadas atividades.
Nas articulações dos dedos, imobilizações temporárias podem ser úteis durante períodos de maior dor e inflamação.
O uso deve ser individualizado, evitando imobilizações prolongadas desnecessárias que possam contribuir para a rigidez.
Medicamentos
Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser utilizados para controlar períodos de dor.
Os anti-inflamatórios tópicos são opções frequentemente consideradas no tratamento da artrose das mãos. Medicamentos por via oral também podem ser indicados em situações selecionadas, levando em conta condições clínicas, contraindicações e possíveis efeitos adversos.
Termoterapia local e medidas de conforto
A aplicação de calor pode ajudar a aliviar a rigidez e facilitar a realização de exercícios em determinados pacientes.
O planejamento de pausas, a distribuição dos esforços e a adaptação de utensílios também podem fazer diferença no cotidiano.
É importante compreender que proteger as articulações não significa deixar de utilizar as mãos. A manutenção de movimentos e atividades adaptadas faz parte do tratamento.

Infiltrações articulares: quando podem ajudar?
Quando a dor permanece apesar das medidas iniciais, as infiltrações podem ser consideradas em situações específicas.
A infiltração com corticosteroide busca reduzir a inflamação e proporcionar alívio temporário dos sintomas.
Esse procedimento pode ser utilizado em determinadas articulações dos dedos e na base do polegar, especialmente quando existem episódios dolorosos que dificultam a reabilitação e as atividades habituais.
Entretanto, a resposta varia entre os pacientes e entre as articulações tratadas. O benefício pode ser limitado, particularmente na rizartrose, e não representa regeneração da cartilagem ou cura da artrose.
A repetição das infiltrações deve ser cuidadosamente avaliada, considerando seus possíveis riscos e a duração do benefício obtido.
Outras substâncias, como o ácido hialurônico e o plasma rico em plaquetas (PRP), também são estudadas. Contudo, as evidências disponíveis ainda não sustentam sua utilização rotineira para a artrose das mãos.

Quando a cirurgia é necessária?
A cirurgia é considerada principalmente quando a dor e a limitação funcional permanecem importantes apesar de um tratamento conservador adequado.
Não é a presença de artrose na radiografia, isoladamente, que determina a necessidade de operar.
O mais importante é avaliar o quanto a doença interfere na vida do paciente e quais resultados podem ser esperados de cada procedimento.
Existem diferentes técnicas cirúrgicas, selecionadas conforme a articulação comprometida.
Artrodese: estabilização da articulação
A artrodese consiste na fusão definitiva de uma articulação.
Embora elimine o movimento naquele local, pode proporcionar importante alívio da dor e maior estabilidade.
É uma alternativa especialmente utilizada em casos selecionados de artrose avançada nas articulações dos dedos, quando a dor e a deformidade comprometem significativamente a função.
Artroplastia: reconstrução ou substituição articular
Em determinadas situações, é possível realizar procedimentos de reconstrução ou substituição da articulação comprometida.
Nas articulações intermediárias dos dedos, por exemplo, existem próteses que buscam preservar parte da mobilidade, embora apresentem indicações específicas e limitações relacionadas à estabilidade e à durabilidade.
Cirurgias para rizartrose
Na artrose avançada da base do polegar, existem diferentes alternativas cirúrgicas.
Entre elas estão a trapeziectomia, que consiste na retirada do osso trapézio, técnicas de suspensão e reconstrução ligamentar e, em pacientes selecionados, a substituição articular por prótese.
As próteses modernas da articulação trapézio-metacarpiana representam uma alternativa para determinados pacientes, com o objetivo de aliviar a dor e preservar a mobilidade do polegar.
A escolha entre essas técnicas depende de fatores como idade, demanda funcional, condições ósseas, estabilidade articular e expectativas do paciente.
Cada procedimento apresenta vantagens, limitações e um período próprio de recuperação e reabilitação.
É possível continuar tendo uma vida ativa com artrose nas mãos?
Sim. E essa é uma das mensagens mais importantes.
O diagnóstico de artrose não significa que o paciente precisará abandonar suas atividades, deixar de trabalhar ou aceitar uma perda progressiva e inevitável da independência.
Muitas pessoas convivem com alterações degenerativas durante anos, mantendo boa função das mãos com medidas relativamente simples.
Outras precisam de acompanhamento mais próximo, reabilitação, medicamentos ou procedimentos específicos.
O tratamento deve respeitar essa individualidade.
Para uma pessoa, o objetivo pode ser voltar a cozinhar sem dor. Para outra, conseguir tocar um instrumento musical, praticar um esporte, trabalhar com ferramentas ou simplesmente abotoar uma camisa com facilidade.
Essas diferenças são importantes e precisam ser consideradas durante a avaliação.
Quando procurar um especialista em cirurgia da mão?
A avaliação especializada é recomendada quando os sintomas se tornam frequentes e atrapalham as atividades diárias e quando há deformidades progressivas.
Também é importante investigar quadros de inchaço persistente, perda significativa de mobilidade ou sintomas que não melhoram com medidas iniciais.
Dor intensa de início súbito, acompanhada de vermelhidão, calor importante ou febre, exige avaliação médica rápida para afastar outras causas, incluindo infecção articular.
A consulta permite identificar quais articulações estão comprometidas, diferenciar artrose de outras doenças e estabelecer um plano terapêutico adequado.

Envelhecer faz parte da vida. Conviver com dor constante e perder a capacidade de realizar atividades importantes não precisa ser encarado como algo inevitável.
Com diagnóstico adequado, orientação e tratamento individualizado, é possível aliviar os sintomas e preservar a função das mãos por muitos anos.

Dr. Bernardo Figueira Althoff
Médico Ortopedista e Cirurgião da Mão
Florianópolis – Santa Catarina

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